Quaternaglia - Quarteto de violões
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REPERTÓRIO GRAVADO

ASSAD, SÉRGIO (1952) - Um dos mais destacados intérpretes do violão das últimas décadas, o brasileiro Sérgio Assad segue ampliando sua participação no cenário musical internacional também através de uma importante carreira de compositor. Entre suas peças mais importantes destacam-se o duo de violões Saga dos Migrantes, a suíte Natsu no Niwa, a peça orquestral Espantalho, as Jobinianas, a Sonata para violão solo e Aquarelle, também para violão solo.

Originalmente composta para quarteto de violões, Uarekena (1994) é baseada em temas extraídos dos povos indígenas brasileiros. É uma peça ritmicamente forte, extremamente idiomática, na qual podemos reconhecer influências estilísticas da música do interior do estado de São Paulo e a presença ostensiva de estruturas de tons inteiros. Uarekena foi registrada pelo Quaternaglia em 1998 e lançada em 2000 no álbum Forrobodó.

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BACH, JOHANN SEBASTIAN (1685-1750) - A versão de Fabio Ramazzina para o único Concerto para quatro cravos e orquestra escrito pelo célebre compositor alemão - índice BWV 1065 - foi concebida para uma apresentação do Quaternaglia com a Orquestra Sinfônica de Santo André em 1996, sob a regência de Flávio Florence. Trata-se, na verdade, de uma "transcrição de uma transcrição", uma vez que Bach baseou-se no Concerto para quatro violinos e orquestra Op. 3 nº 10 RV 580 de Antonio Vivaldi (1678-1741). Ramazzina mantém a tonalidade escolhida por Bach para os cravos, lá menor, uma vez que o original de Vivaldi para violinos é em si menor. A versão gravada pelo Quaternaglia não é, porém, com orquestra, mas concebida apenas para quarteto de violões. Ela pode ser encontrada - em seus três movimentos - no CD comemorativo 10 anos de Violão Intercâmbio (GTR, 2004).

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BELLINATI, PAULO (1950) - Violonista e compositor de intensa atuação no Brasil e no exterior, é um especialista em ritmos brasileiros. A partir da receptividade internacional de sua edição da obra de Garoto, um dos mais importantes violonistas brasileiros da década de 1950, tem publicado regularmente diversas composições para violão solo e grupos de violão. Nos últimos anos, várias de suas obras têm sido gravadas por renomados violonistas (como por exemplo a gravação de seu Jongo realizada por John Williams). As três obras dedicadas ao Quaternaglia ressaltam diferentes aspectos e possibilidades de utilização composicional de ritmos brasileiros para quarteto de violões.

Baião de Gude (1997), estreado e registrado pelo Quaternaglia em 1998, reproduz a estrutura do ritmo nordestino popularizado por Luiz Gonzaga aliado a uma forte influência jazzística. Em alguns momentos torna-se clara a evocação dos instrumentos do baião tradicional através dos violões, que insinuam simultaneamente a voz, o acordeão, o zabumba e o triângulo.

A Furiosa (1997, estreada no mesmo ano e gravada em 1999) utiliza o ritmo do maxixe para propor uma irônica e virtuosística peça com o sabor da música popular brasileira do início do século XX. É também uma homenagem às bandas que se apresentam nas praças das cidades do interior do Brasil, as "furiosas". Além da gravação para o álbum Forrobodó (2000), há um registro ao vivo que consta do DVD Quaternaglia (2006) com a participação do compositor ao cavaquinho.

Lun-Duos (1996, estreada em 1997 e gravada em 1998), também escrita para quatro violões pelo autor e dedicada ao Quaternaglia, é uma obra experimental baseada em múltiplos efeitos percussivos e também no ritmo afro-brasileiro do lundu. Na peça, o quarteto é transformado numa competição entre vários duos, o que justifica o seu título bem-humorado.

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BOCCHERINI, LUIGI (1743-1805) - Violoncelista e compositor italiano nascido em Lucca, Boccherini passou por Viena e Paris até fixar-se em Madrid em 1768. Os quintetos de Boccherini podem ser classificados em duas seções distintas: os quintetos propriamente ditos, partituras mais elaboradas, e os denominados quintettini, composições menos pretensiosas muitas vezes adaptadas de outros quartetos e quintetos do próprio compositor. É este o caso das obras que incluem violão, ou mais propriamente, a guitarra de cinco ordens.

A primeira aparição do Grave Assai et Fandango dá-se em 1788 como movimentos iniciais de um quinteto com dois violoncelos (op. 40 nº 2), o "quintettino imitando il fandango che suona sulla chitarra il Padre Basilio", como intitulou o autor . O Padre Basilio (Miguel Garcia) foi um importante guitarrista espanhol, um dos precursores no uso de seis cordas simples na guitarra. A obra é adaptada para incluir a guitarra em 1798, numa transcrição do próprio Boccherini dedicada ao também violoncelista Marquês Benavente: são os dois movimentos finais do Quinteto nº 4 para quarteto de cordas e guitarra (Gérard 448). Esta é a versão utilizada na transcrição para quarteto de violões de Jeremy Sparks (gravada em 1995 pelo Quaternaglia) que, de certa forma, devolve a obra ao idioma que inspirou, na origem, sua composição.

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BROUWER, LEO (1939) - As obras do cubano Leo Brouwer contribuíram bastante para a ampliação e estabilização da formação quarteto de violões como uma proposta camerística interessante e cada vez mais presente no cenário musical internacional. As três peças gravadas pelo Quaternaglia inserem-se no contexto das preocupações estéticas da última fase da obra do compositor, mas guardam também influências importantes das fases anteriores de seu percurso composicional, a saber, a do romantismo tardio com características nacionalistas latino-americanas (anos 50-60), e a das radicais experiências de vanguarda (anos 60-70). Dentre as principais influências presentes na obra para quarteto destacam-se a do minimalismo e o uso de escalas exóticas.

Paisaje Cubano con Rumba (1985) foi inicialmente escrita para o quinteto de flautas doce de Franz Brügen e posteriormente adaptada para quarteto de violões e também para violão solo e fita magnética pelo autor. A idéia de rumba na peça é a de uma celebração mítica, como se o ritual africano pudesse ser transferido para a vida urbana. A peça utiliza-se amplamente de material pentatônico e de proporções baseadas na seção áurea. O compositor esteve presente a duas performances da Rumba executadas pelo Quaternaglia: no Festival Internacional de Violão de Montevidéu (1996) e na final do Concurso Internacional de Violão de Havana (1998).

Paisaje Cubano con Lluvia (1984) figurativiza a plasticidade de uma chuva que configura a cultura cubana. Assim, a matriz ritualística pentatônica e os ritmos afro-latinos são qualificados tanto pelo modalismo diatônico quanto pelo atonalismo serial. A seção áurea também impera desde o princípio da peça, onde as notas-gotas sucedem-se na proporção de 1, 2, 3, 5, 8 etc. A Rumba e a Lluvia fazem parte, ao lado de peças concebidas para outras formações, da série das "Paisajes Cubanos" (entre as quais podemos citar também Paisaje Cubano con Campanas e Paisaje Cubano con Tristeza, para violão solo e Paisaje Cubano con Ritual, para percussão).

Juntamente com a Toccata (ed.1988) - peça concebida também para ser apresentada em grupos maiores, como orquestras de violões - a Rumba e a Lluvia foram gravadas pelo Quaternaglia em 1995.

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CAMPOS, LINA PIRES DE (1918-2003) - Discípula de Camargo Guarnieri, a compositora paulista estudou também com Osvaldo Lacerda, Furio Franceschini e Caldeira Filho. Como professora de piano, foi assistente de Magdalena Tagliaferro, e entre os seus alunos podemos citar o pianista Caio Pagano. Entre suas obras mais importantes está o Ponteio e Toccatina para violão solo, menção honrosa no I Concurso Brasileiro de Composição de Música Erudita para Piano e Violão (1978). Originalmente escritas para piano, as Variações sobre o tema de Mucama Bonita foram adaptadas pela autora para a Camerata de Violões do professor Manoel São Marcos, e a partir dessa partitura o Quaternaglia preparou a versão para quatro violões, registrada no CD Universo Sonoro de Lina Pires de Campos (Regia Musica) em 1998, ano em que a autora completou 80 anos.

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CARULLI, FERDINANDO (1770-1841) - O compositor napolitano estudou violoncelo até optar pelo violão de forma integral. Fixou-se em Paris em 1808, onde teve intensa atividade como compositor, intérprete e didata. Escreveu cerca de 400 obras para e com violão. A Sonata op. 21 nº 1, escrita para violão solo, é provavelmente anterior à publicação de seu famoso Méthode Complète pour Guitare op. 27, em 1810.

Concebida em moldes clássicos em três movimentos (Moderato - Adagio - Rondó/ Allegretto) e influenciada também pela ópera italiana, a obra parece propor uma visão "orquestral" do instrumento, aspecto que acaba sendo enfatizado na versão de Heinrich Albert para quarteto, registrada pelo Quaternaglia em 1995. Para a execução foi levada em conta também uma versão para piano e violão.

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GISMONTI, EGBERTO (1947) - Compositor, pianista e violonista, Gismonti é um dos mais ecléticos músicos brasileiros da atualidade. Sua produção abrange música orquestral, música de câmara, ballet e música vocal. A gama de referências presentes em sua obra inclui simultaneamente a música do interior do Brasil, os ritmos nordestinos, o jazz e a música erudita contemporânea, onde pode ser detectada uma forte influência de Igor Stravinsky.

Iniciada em 1996, a cooperação entre o compositor fluminense e o quarteto de violões Quaternaglia tem gerado uma das mais interessantes expansões do repertório contemporâneo para quatro violões. O trabalho sobre as quatro peças dedicadas ao quarteto (Forró, Karatê, Quartetinho e Forrobodó) e a adaptação do tema Um Anjo, realizados em contato constante com o compositor, constituíram-se num importante foco das atividades do Quaternaglia nos últimos anos.

Sobre Forró (1996), Gismonti afirma: "Forró foi a primeira peça dedicada ao Quaternaglia. Trata-se de um teste de resistência e musicalidade. Eu diria que o "forró" é coisa pra bandeirante que não sabe exatamente o que encontrar no final (?) da picada, mas que não resiste ao cheiro do mato verde, da terra molhada, da marca da anta no chão, ou até mesmo ao latido de um vira latas ao longe." A peça foi estreada na cidade de Campinas, no estado de São Paulo, em 1997 e gravada em 1998. A estréia nos Estados Unidos ocorreu em janeiro de 1999.

Karatê (1997) é um alegre frevo de rua baseado no carnaval pernambucano. Na versão dedicada ao Quaternaglia, o (já conhecido) tema brinca de esconde-esconde com seus múltiplos "acompanhamentos" (será possível ainda utilizar esse termo?), revelando-se e ocultando-se num intrincado jogo. A peça foi estreada em 1998 e gravada em 1999.

Quartetinho (1997) é uma fina miniatura de caráter contrapontístico sobre um tema com características nordestinas "a ser utilizado como último bis", nas palavras generosas da dedicatória do compositor. Egberto orquestrou a peça para uma versão com a Lithuanian State Symphony Orchestra. A versão orquestral recebe o título de Strawa no Sertão - Zabumba. Estreada em 1998, foi gravada pelo Quaternaglia no mesmo ano.

Forrobodó (1999) também pode situar-se entre os grandes desafios musicais escritos até agora para a formação de quatro violões. Forrobodó é música de sobrevivência, é música de quem não pode barganhar com o tempo. É música da simultaneidade que não deixa espaço para o trivial. É música enquanto necessidade de vida. A estréia do Forrobodó ocorreu no Auditório do Masp (São Paulo) em setembro de 1999. A peça foi gravada em dezembro do mesmo ano para o álbum Forrobodó (2000), sendo registrada novamente em versão ao vivo que consta do DVD Quaternaglia (2006).

Escrito inicialmente para a adaptação cinematográfica feita por Ruy Guerra do romance Quarup, de Antônio Callado, Um Anjo teve seu arranjo para quatro violões realizado por Paulo Porto Alegre. A versão gravada pelo Quaternaglia em 1999 conta com a participação do próprio Gismonti ao sintetizador. A peça, em versão ao vivo, também está no DVD Quaternaglia (2006).

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GNATTALI, RADAMÉS (1906-1988) - É mais fácil falar hoje da obra de Radamés Ganattali. Não porque sua produção já tenha sido suficientemente estudada, mas porque o mundo musical tem caminhado para se tornar cada vez mais gnattaliano. Freqüentemente perseguido em vida tanto pelos nacionalistas quanto pela vanguarda, tanto pelos músicos populares quanto pelos eruditos, o compositor nascido em Porto Alegre e que viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro tem encontrado lugar garantido no repertório deste início de século XXI. Sua visão urbana e altamente irônica do Brasil, fluência de escrita e ênfase em pacíficas fusões entre linguagens musicais contrastantes antecipou - em mais de 50 anos - o ambiente estético pós-moderno dos dias atuais. A maior parte das publicações sobre o repertório violonístico do século XX tem destacado a importância de obras tais como as duas Toccata em Ritmo de Samba, a Danza Brasileira, os 10 Estudos (para violão solo), os quatro concertos para violão e orquestra, o concerto para dois violões e orquestra, além de suas peças para dois violões, violão e piano e violão e flauta. A obra gravada em 2004 pelo Quaternaglia em primeira gravação mundial é uma versão para quarteto de violões preparada pelo próprio Radamés em 1980 a partir de seu Quarteto de Cordas n. 1 (1939), por sugestão do violonista e compositor brasileiro Sérgio Assad.

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HUME, TOBIAS (c. 1569-1645) - As peças deste compositor inglês não foram escritas em pentagrama convencional, mas numa tablatura semelhante a que era usada na França para a escrita alaudística. O ciclo que faz parte do repertório do Quaternaglia encontra-se numa obra publicada em Londres em 1607 para lyra viol (viola da gamba baixo pequena) denominada Captaine Humes Poeticall Musicke. Afirma Gilbert Biberian sobre sua transcrição: "O título Intavolatura é uma metáfora. Foi necessário voltar às origens da música renascentista para resgatar a amplitude de seus princípios polifônicos. Trata-se de uma verdadeira transcrição, pois nada foi alterado da tablatura original". O ciclo Intavolatura, registrado pelo Quaternaglia em 1995, compreende Sweet Music, Maske, The Passion of Music e Mistress Tittle's Jig.

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JOBIM, TOM (1927-1994) - A força das canções de Tom Jobim é tamanha que ofusca freqüentemente suas trilhas de cinema. Mas o cinema percorre toda a trajetória poética do compositor carioca, desde Orfeu Negro (1959), no início de sua carreira, até a trilogia Eu te amo (1981), Gabriela (1983) e Fonte da Saudade (1987). Crônica da Casa Assassinada, baseada em romance homônimo de Lúcio Cardoso (1912-1968) publicado em 1959, foi composta por Jobim especialmente para o filme A Casa Assassinada (1971), de Paulo César Saraceni, tendo sido premiada no I Festival de Cinema de Gramado. A adaptação realizada por João Luiz destaca os principais trechos da trilha gravados por Tom em seu LP Matita Perê (1973), incluindo "Trem para Cordisburgo" - referência à cidade natal do escritor mineiro Guimarães Rosa - e "Chora Coração", que recebeu versos de Vinicius de Moraes. A versão foi gravada pelo Quaternaglia em 2004 para o álbum Presença e em 2006 para o DVD Quaternaglia.

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LORA, DOUGLAS (1978) - Bacharel em Composição pelo Uni FIAM / FAAM em São Paulo, sob a orientação de Ricardo Rizek, e em Violão Clássico sob a orientação de Henrique Pinto. Sua produção - predominantemente voltada ao violão - inclui peças para violão solo, duo, trio de violões e violão e orquestra. O caráter idiomático de sua escrita revela-se de imediato em Maracasalsa (2003-4), sua primeira obra para quarteto de violões: escrita para o Quaternaglia, a peça marca uma virtuosística fusão do maracatu brasileiro com a salsa latina a partir de um inesperado uso das formas barrocas da toccata e da fuga. A peça foi gravada em 2004 para o álbum Presença, e sua "Fuga", em versão ao vivo, aparece também no DVD Quaternaglia (2006).

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MARQUEZ CUNHA, ESTÉRCIO (1941) - O compositor brasileiro é Doutor em Artes pela University of Oklahoma (USA) e professor aposentado da Universidade Federal de Goiás. Além de Suiternaglia (1993) seu repertório para violão inclui duas peças para violão solo, música para violão e violino, três peças para soprano, flauta e violão, e música para dois violões.

Sobre Suiternaglia escreve o compositor: "Suiternaglia foi feita para quatro violões (especificamente para o Quaternaglia) em três movimentos ininterruptos e inseparáveis. Moldados basicamente sobre os mesmos elementos, cada movimento guarda sua própria ênfase: o primeiro melódico, o segundo tímbrico, e o terceiro rítmico." Suiternaglia teve sua primeira gravação realizada em 1995.

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MOLINA, SÉRGIO (1967) - Violonista e Bacharel em Composição pela Universidade São Paulo na classe de Willy Corrêa de Oliveira, Sergio Molina é autor de uma versátil produção que inclui sobretudo canções populares e música de câmara. Sua Sweet Mineira (1998) é baseada em temas de Milton Nascimento. A idéia de utilizar temas do compositor e cantor popular brasileiro Milton Nascimento (1942) na elaboração de uma nova obra para quarteto de violões foi uma sugestão direta do compositor Leo Brouwer. A conversa que inspirou Sweet Mineira ocorreu em Montevideu (Uruguai), logo após o Quaternaglia ter gravado a obra integral para quatro violões do compositor cubano (CD-JHO, 1995). Molina trabalhou a partir de quatro temas de Milton, três dos quais mencionados por Brouwer. No primeiro movimento dialogam e fundem-se "Ponta de Areia", uma bela melodia pentatônica que conta a história de uma ferrovia abandonada no caminho entre Minas Gerais e Bahia, e "San Vicente", o relato de um "sonho estranho" que faz preencher de "vidro" e "corte" a subjetividade latino-americana. Ambas as canções contam com versos escritos por Fernando Brant. Segue-se - com versos de Ronaldo Bastos - "Cais", cuja letra carregada de tensão pontua a necessidade de "inventar os limites para poder se soltar", de "inventar o sonhador para poder sonhar", e "Cravo e Canela", que enumera com humor e malícia os mais variados "temperos" da culinária mineira. Na forma sonata quase clássica adotada para esse movimento final, Molina cita, ironicamente, o início da re-exposição do primeiro movimento da sonata Appassionata op.57 de Beethoven: uma nota dó grave - obstinadamente repetida - interfere no tema, atrapalha o seu ressurgimento; mas, apesar do incômodo, ele insiste em voltar e acaba finalmente se impondo, como se nada tivesse ocorrido. "San Vicente", "Cais" e "Cravo e Canela" foram lançadas por Milton no histórico LP Clube da Esquina (1972), enquanto que "Ponta de Areia" surgiu no disco Minas (1975). A peça, dedicada ao Quaternaglia, foi estreada em 1998 (São Paulo) e em 2003 (Estados Unidos) e gravada em 2004 (para o CD Presença) e em 2006 (para o DVD Quaternaglia em versão ao vivo).

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NAZARÉ, ERNESTO (1863-1934) - Pianista e compositor carioca, Nazaré é o fixador do tango brasileiro. Suas obras foram amplamente executadas pelos "pianeiros", conjuntos de choro e bandas de música até serem também descobertas por compositores e intérpretes eruditos.

Batuque é um "tango característico" editado em 1906 que Egberto Gismonti adaptou (imprimindo sua marca) para violão e piano, em arranjo dedicado a seus filhos Alexandre e Bianca e Escovado, tango de 1904, teve uma adaptação de Egberto para piano e orquestra. A partir das versões citadas, Paulo Porto Alegre realizou o arranjo para quarteto de violões. As duas versões foram gravadas em 1999 e estreadas em 2000 na cidade de Cuiabá, no estado do Mato Grosso.

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PRAETORIUS, MICHAEL (c. 1571-1621) - A "instrumentação" ou "forma sonora" de uma obra é considerada hoje parte da composição. No período renascentista esta idéia não estava ainda totalmente estabelecida, o que quer dizer que, em muitos casos (ainda nos séculos XVII e XVIII), é possível considerar que a escolha do arranjo instrumental fazia parte da execução da obra, e não de sua composição.

O teórico e compositor alemão Michael Praetorius (nascido em Creuzburg) costumava deixar suas obras abertas para a experimentação de diversas combinações instrumentais, tanto numa mesma família quanto entre instrumentos diferentes. Segundo o autor da transcrição, o violonista e compositor Gilbert Biberian (Inglaterra), "Praetorius provavelmente não objetaria a performance destas danças em um conjunto de violões".

As 8 Danças gravadas pelo Quaternaglia em 1995 (Ballet Des Coqs, Gaillarde, Bransle De La Torche, Ballet, Courante, Spagnoletta, Bransle De La Rayne e Volta) fazem parte do ciclo Terpsichore de 1612. As danças foram especialmente escolhidas por Biberian, uma vez que Praetorius não organizou sua obra em suítes, como já começava a ser comum na época.

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STRAVINSKY, IGOR (1882-1971) - As 3 Peças para Piano a Quatro Mãos (March, dedicada a Alfredo Casella, Waltz, dedicada a Erik Satie, e Polka, dedicada a Serge Diaghilev), escritas em 1915 e as 5 Peças para Piano a Quatro Mãos (Andante, Española, Balalaika, Napolitana e Galop), escritas em 1917, foram concebidas num hiato pianístico entre os 4 Estudos op7 (1908) e a Piano Rag-Music (1919). Quase imediatamente Stravisnky procedeu à orquestração das 8 peças, divididas agora em duas suites: a nº2 (1921), contendo March, Waltz, Polka e Galop e a nº1 (1925), com Andante, Napolitana, Española e Balalaika.

As 8 Peças foram apresentadas pelo renomado Quarteto de Alaúdes Aguillar, que atuou com grande sucesso em turnês pela Europa e Américas nos anos 20 e 30. As apresentações dos músicos espanhóis mereceram críticas elogiosas de Mário de Andrade quando de seus concertos em São Paulo, em 1933. A primeira gravação para quarteto de violões foi feita em 1976 pelos músicos do quarteto argentino Martinez-Zárate. A presente versão foi concebida a partir do original para piano a quatro mãos pelo violonista brasileiro Paulo Porto Alegre, que também transcreveu e registrou algumas dessas peças para trio de violões (Trio Opus 12, 1982).

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TELEMAN, GEORG PHILIPP (1681-1767) - Nascido em Magdeburg, foi o mais significativo compositor da escola do norte da Alemanha durante a primeira metade do século XVIII. Na obra gravada em 1995 pelo Quaternaglia, intitulada originalmente Concerto a 4 violini senza basso, é como se o compositor utilizasse apenas o concertino (grupo de solistas) do concerto barroco e dele extraísse tanto o solo quanto o tutti.

Para conseguir tal efeito, Telemann faz uso de combinações variadas entre os quatro instrumentos, o que inclui um sofisticado uso da polifonia com entradas canônicas não muito comuns em sua obra. A transcrição é assinada por Heinz Teuchert.

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TINÉ, PAULO (1970) - Compositor e guitarrista, graduado pela Universidade São Paulo, estudou violão com Edelton Gloeden e freqüentou os cursos de Composição e Estética de Ricardo Rizek. Suas peças para violão solo têm grande interesse, e têm sido editadas na Europa pela Martin Müller Edition. Noite Escura (1998), inspirada em poema homônimo do místico carmelita San Juan de la Cruz (1542-1591), revela a visão bastante pessoal que o compositor tem da música espanhola, enquanto que Presença (2003) é um choro que começou como uma homenagem ao compositor e instrumentista brasileiro Egberto Gismonti - citando a harmonia de sua peça Sete Anéis -, mas logo ganhou vida própria, incorporando características específicas da produção de Tiné, como leveza e swing no material temático, minuciosas transições entre as seções, modulações originais, e uma forma dinâmica, em constante desenvolvimento. Noite Escura foi estreada em São Paulo (2002) e nos Estados Unidos (2003) e Presença em Belém (2003). Ambas foram dedicadas ao Quaternaglia, e registradas pelo grupo em 2004 no álbum Presença, sendo que Noite Escura também aparece, em versão ao vivo, como parte do DVD Quaternaglia (2006).

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VILLA-LOBOS, HEITOR (1887-1959) - A Lenda do Caboclo foi escrita por Heitor Villa-Lobos em 1920 para piano solo. É do mesmo ano que o Choros nº1 para violão solo e, na obra pianística, situa-se entre a Prole do Bebê nº1 (1918) e a nº2 (1921), um período que antecede sua atuação na Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo e a primeira viagem a Paris (1923). A elogiada transcrição para quarteto de violões foi realizada por Eduardo Fleury, integrante do Quaternaglia.

A série das 9 Bachianas Brasileiras (1930-45) foi concebida por Villa-Lobos como um diálogo entre a universalidade da obra de J. S. Bach (1685-1750) e o mundo da música popular brasileira da primeira metade do século XX. A Bachianas Brasileiras nº1, gravada integralmente pelo Quaternaglia em 1995, indica na duplicidade dos títulos de seus movimentos essa proposta: a Introdução associada ao ritmo das "emboladas ", o Prelúdio ao melodismo das "modinhas" e a Fuga a uma "conversa" entre quatro "Chorões" e, segundo o autor, "à maneira de Sátiro Bilhar", músico popular que conviveu com Villa-Lobos nas "rodas de Chorões" da cidade do Rio de Janeiro do início do século. Dedicada a Pablo Casals, é original para 8 violoncelos e foi estreada no Rio de Janeiro dirigida por Walter Burle Max.

A transcrição - internacionalmente aplaudida pela comunidade musical - que o Quaternaglia utiliza, foi concebida pelo violonista e luthier carioca Sergio Abreu. A estréia americana da adaptação de Sergio Abreu para as Bachianas Brasileiras nº 1 de Villa-Lobos ocorreu em 1997, nas cidades de Miami, Princeton e Washington D.C.

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VITTA, RODRIGO (1971) - Compositor e regente graduado em Composição pelo Uni FIAM / FAAM em São Paulo sob a orientação de Ricardo Rizek, Vitta é um admirador da Segunda Escola de Viena, e assume os riscos de estar sempre "nas fronteiras da tonalidade": sua obra nada tem de nacionalista, sua visão de Brasil passa pelo rigor harmônico de Alban Berg e pela fase pré-dodecafônica de Schoenberg. Sonata, escrita para o Quaternaglia em 1997, foi orquestrada em 2000, tornando-se o primeiro movimento da Sinfonia Brasileira, obra premiada em concurso comemorativo aos "500 anos" do Brasil. Já a Paisagem Brasileira n.4, intitulada "Urbana", foi inspirada em obra na qual a artista plástica brasileira Nele Azevedo confecciona homenzinhos de gelo que são colocados em pontos escolhidos de grandes cidades: no meio do caos urbano, as miniaturas apenas derretem, e provocam um incômodo quase inexplicável diante de sua fragilidade. As três primeiras obras da série "Paisagens Brasileiras" - intituladas respectivamente "Mangue", "Cerrado", e "Caatinga" - foram escritas para orquestra de cordas. Quaternaglia gravou ambas as peças em 2004.

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